Conselho Regional de Farmácia

De Mato Grosso do Sul

Boletim Epidemiológico reúne informações sobre exposição a substâncias e contaminantes químicos

O CRF-MS compartilha o Boletim Epidemiológico da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Substâncias e Contaminantes Químicos, material que reúne informações sobre os impactos da exposição a agentes químicos na saúde da população e reforça a importância da vigilância, prevenção e promoção da saúde. O boletim apresenta o panorama epidemiológico das intoxicações exógenas no Brasil entre 2015 e 2024, com aumento expressivo das notificações e predominância de casos relacionados a medicamentos.

O perfil epidemiológico das intoxicações exógenas (IE) revela importantes padrões de ocorrência segundo características sociodemográficas, agentes tóxicos e circunstâncias (Apêndice A). O uso de medicamentos destaca-se como o principal agente tóxico envolvido nas IE, sendo responsável pela maioria dos registros em todas as categorias analisadas, representando 53,1% do total de casos (n=882.932). Em seguida, as IE por drogas de abuso somaram 12,5% das notificações (n=208.692) e por agrotóxicos contou com 8,6% dos casos (n=142.877), evidenciando a relevância desses agentes na carga de morbidade relacionada às notificações de IE (Figura 2).

A distribuição por faixa etária revela maior frequência de casos entre adultos jovens, com destaque para a faixa de 20 a 29 anos que concentrou 25,2% (n=418.548) das notificações (Figura 3). Nessa faixa etária, a maioria das intoxicações esteve relacionada ao uso de medicamentos (n=233.421; 55,8%), seguidas por drogas de abuso (n=64.400; 15,4%) e agrotóxicos (n=33.071; 7,9%). Padrão semelhante foi observado na faixa de 30 a 39 anos, que representou 18,0% das notificações (n=300.196).
Destaca-se também o elevado percentual de casos notificados em menores de 14 anos (18,7%; n=311.956), conforme figura 3.

Também chama atenção a frequência de IE entre crianças de 1 a 4 anos, que totalizou 9,1% (n=152.067) dos casos registrados. Os medicamentos foram os principais agentes envolvidos nessas notificações (n=60.855), seguido dos produtos de uso domiciliar (n=33.707), o que indica maior vulnerabilidade a exposições acidentais no ambiente doméstico (Figura 3).

A distribuição das IE segundo circunstância encontra-se apresentada na Tabela 1. As tentativas de suicídio representaram 46,5% (n=773.496) dos casos notificados. Entre as intoxicações por medicamentos, 70,1% (n=618.997) dos registros estavam relacionados a essa circunstância, enquanto, entre as intoxicações por agrotóxicos, a proporção correspondente foi de 49,3% (n=70.418). Dados de sistemas de informação dos Estados Unidos e do Reino Unido também registram medicamentos entre os agentes tóxicos mais frequentemente envolvidos em intoxicações exógenas, tanto acidentais quanto intencionais.

Nesse ambiente, os medicamentos destacaram-se como os principais agentes tóxicos envolvidos, com 772.643 notificações, sendo que 80,6% de todas as intoxicações por esse agente ocorreram em residências. No que diz respeito à via de exposição, a via digestiva foi a principal forma de exposição identificada, responsável por 80,1% (n=1.332.738) dos casos, predominando nas intoxicações por medicamentos (n=834.724; 94,5%) e drogas de abuso (n=131.438; 63,0%) (Figura 4).

A Figura 5 demonstra que a maioria dos casos de IE resultou em atendimento hospitalar (n=1.174.526; 70,6%), o que indica a gravidade desses eventos, especialmente nos casos envolvendo medicamentos, nos quais 75,4% (n=665.548) das notificações registram esse tipo de atendimento (Apêndice C). Estudo aponta os medicamentos como os principais agentes tóxicos notificados no Brasil, sendo responsáveis por elevada carga de hospitalizações e óbitos relacionados à intoxicação medicamentosa.

A exposição aguda foi predominante em 76,0% (n= 1.264.329) dos casos (Figura 5), com maior ocorrência nas notificações envolvendo medicamentos, nos quais 81,5% (n=719.998) das notificações registram esse tipo de exposição. O mesmo perfil é observado para intoxicações por produtos de uso domiciliar com 86,5% (n=72.832) das notificações registradas como agudas, e alimentos e bebidas com 69,7% (n=61.216) (Apêndice C). Cenário semelhante foi descrito em estudo conduzido no estado do Pará, que também evidenciou a predominância das exposições agudas nas IE, sobretudo relacionadas ao uso de medicamentos e substâncias presentes no ambiente domiciliar. Os óbitos por IE ocorreram em 0,8% (n=13.108) dos registros analisados, também causados, principalmente, por medicamentos e por drogas de abuso.

CONCLUSÕES ou CONSIDERAÇÕES FINAIS: Em síntese, os medicamentos configuram-se como o principal agente tóxico relacionado às IE no Brasil, em virtude da disponibilidade de acesso e sobretudo em decorrência de tentativas de suicídio. Esse achado reforça a necessidade de medidas voltadas à prescrição racional, ao armazenamento seguro e ao acompanhamento terapêutico. A subnotificação, incompletude de alguns campos e heterogeneidade regional na capacidade de detecção e notificação, precisa ser considerada nas análises e pode dificultar a avaliação completa da população exposta, indicando a importância da vigilância e padronização dos registros. os achados deste Boletim, referentes aos anos de 2015 a 2024, evidenciam que as intoxicações por medicamentos concentram a maioria das notificações ocorridas no Brasil, seguidas por drogas de abuso e agrotóxicos. Esse perfil reforça a coexistência de eventos agudos (de rápido início e alta demanda assistencial) e crônicos (de curso silencioso e com potenciais desfechos em saúde, como neurológicos, hematológicos e renais), exigindo respostas integradas entre vigilância, assistência, regulação e educação em saúde.